A bunda já não abunda – Joca Souza Leão

Bunda é palavra sonora, vogal, insinuante, simpática, risonha, franca, redonda, provocante, faceira e feminina. Quando eu era menino, ninguém chamava bunda de bumbum. Essa invenção de mau gosto é coisa recente. A bunda abundava plena. As avós mais puritanas a pronunciavam sem vergonha alguma. No diminutivo, quando se referindo às dos netos: injeção na bundinha, caiu de bundinha no chão. E bunda-canástica era brincadeira que todo menino pequeno brincava.

Nos Jogos Intercolegiais, tinha uma menina que jogava vôlei pelo Vera Cruz (ou Damas?) que a gente chamava de Raimunda: “feia de cara, boa de bunda.” A bunda vive (ou “se diverte”) por conta própria, como nos disse o poeta. E não depende da cara da dona.
Feliz o povo que tem bunda. Os portugueses mesmo não têm. Nem bunda palavra nem bunda propriamente dita. Talvez por isso sejam tão melancólicos. Não têm dança de requebro. Usam uma única palavra (aquela de uma sílaba, palavra seca, áspera, aguda, dura, essa sim, feia) para se referir à parte e ao todo. Para que se avalie a aberração, seria como se chamássemos de amídala tanto o rosto quanto a própria amídala. Continue lendo

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Me engana que eu gosto

Assim também é demais! Já não sei no quê acreditar, acabei de ler a notícia de que a Danone vai mudar a propaganda de dois de seus iogurtes mais vendidos: Activia e Actimel, pois segundo a Autoridade Européia de Saúde Alimentar, eles não são tão milagrosos assim quando o assunto é garantir uma viagem regular, tranquila e aliviadora ao banheiro.

Olha, embora eu não seja exatamente o tipo de pessoa que tem problemas com as visitas cotidianas ao vaso sanitário, confesso que havia sido convencido pela credibilidade do comercial, com todas aquelas explicações científicas e gráficos demonstrativos, e, se por acaso eu precisasse de uma forcinha na hora de “fazer força”, com certeza toparia o desafio dos 14 Activias, mesmo porque eu não teria nada a perder, como a moça diz na propaganda: se eu não conseguir err… bom… vocês sabem… recebo meu dinheiro de volta.

A publicidade, em especial a televisiva, nos expõe a um universo de coisas imprescindíveis e maravilhosas que, se até ontem nem sequer dávamos conta da sua existência, hoje temos a plena certeza de que não vivemos mais sem elas. Continue lendo

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Vida de artista

Semana passada eu estava numa festa aqui no Timor quando fui cumprimentado por um total desconhecido. Como minha mãe me ensinou, eu retribuí o aceno e sorri amarela, mas simpaticamente, pois não fazia a menor ideia de quem se tratava. Para minha surpresa, logo em seguida ao aceno veio a frase: “parabéns pelo Blog! Tenho acompanhado há um ano, está muito bom!”. Sorri novamente, sendo que, dessa vez, me sentindo feliz por ter sido reconhecido (sou muito mais bonito ao vivo do que na foto do site) e por ter recebido um elogio, aparentemente, sincero, afinal, diferente dos meus familiares e amigos que são coagidos a fazer comentários no site, caso contrário eu fico sem falar com eles, o leitor era alguém que não tinha a mínima necessidade de puxar o meu saco.

Esse simples gesto me fez parar para analisar a cena toda e, finalmente, depois de quase um ano, fui reconhecido pelo que escrevo, senti-me uma celebridade. Sei que ainda posso estar longe de me comparar a um Luís Fernando Veríssimo ou de ser um formador de opinião como Oprah Winfrey ou a Ana Maria Braga, mas já era um começo. O estrelato subia à minha cabeça…

De uma hora para outra, comecei a pensar que era o mais novo famoso-desconhecido da praça, uma espécie de ex-BBB do momento. Já sonhava em ser convidado para entrevistas, vernissages, coquetéis, noites de autógrafos, participações em programas televisivos, convite da playboy… e, antes que me venham crucificar, atire a primeira pedra aquele de vocês que não tiraria a roupa em fotos meramente “artísticas” e totalmente retocadas no Photoshop, por alguns míseros milhões de reais… Continue lendo

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Receita para criar um Super-Herói

Uma coisa é comum às ideias malucas, elas surgem em qualquer lugar, a qualquer hora, e a qualquer momento. Aqui do outro lado do planeta a coisa não ia ser diferente… Eu estava reunido com uns amigos quando, sem mais nem menos, ou melhor, com mais (bebida) e menos (coisas importantes para pensar), um deles teve a “brilhante” ideia de me transformar em um Super-Herói.

Depois de muitas risadas, vi que eles, não sei se por estarem envolvidos pelo espírito etílico ou por se sentirem órfãos de um paladino da justiça imbuído em livrar o mundo das iniquidades, pareciam levar a coisa a sério e, como não havia outra alternativa, decidi entrar no clima.

Minha avó já dizia que três coisas não devemos rejeitar: um conselho sábio (o problema é saber quando e sábio e quando não é), um prato de comida, e o convite para ser padrinho de batismo de alguém, o que na minha terra é visto como maldição, pois quem é rejeitado no batismo, certamente vira lobisomem. Contudo, como estou muito longe da minha avó e considerando a diferença de fuso horário, fiquei com receio de a acordar no meio da madrugada só para tirar a dúvida, e acrescentei à lista, por conta própria, mais um item: “não devemos recusar um apelo para nos tornarmos um Super-Herói”. Assunto resolvido, eu só tinha uma exigência a fazer: nunca, em hipótese alguma, eu usaria a cueca por cima das calças! Continue lendo

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A última Coca-Cola do deserto

Imaginem-se vagando em pleno deserto, com sede, cansados e sendo duramente castigados por um sol causticante. A vista não consegue enxergar muita coisa além das ondas de calor e da brisa arenosa que teima em ficar entrando em seus olhos, tornando o esforço em mantê-los abertos num verdadeiro sacrifício. De repente, não me perguntem como, apenas acompanhem o raciocínio, aparece à sua frente uma garrafa de Coca-Cola aparentando estar “estupidamente” gelada, também não me perguntem como isso é possível, continuem focados na ideia…

Bom, tirando os naturebas de plantão, os apreciadores de Coca Zero e um primo meu, que só toma Guaraná Antarctica, todos vocês (e eu me incluo no grupo) iriam achar que aquilo era a coisa mais valiosa e importante que poderia existir. Pois é, tem gente que se acha exatamente assim: “a última Coca-Cola gelada do deserto”, o tipo de pessoa que acredita ser melhor e mais capaz do que todo o Mundo, e que não mede esforços para tentar nos convencer disso.

Eu conheço um monte deles e, deixando de lado uma ameaça de prisão quando eu, já cansado de ouvir lorotas, cheguei para um que era meu superior e disse: “- Chefe, dê-me licença, mas mentira eu só gosto quando eu conto…”, na maioria dos casos eles nos rendem não só boas risadas como também assunto para várias semanas de comentários, desde que eles não estejam presente, lógico. Continue lendo

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Vote em mim e não se arrependa

Antes de qualquer coisa, vou dizer com sinceridade: cansei de trabalhar e agora eu quero ser político! Vou aproveitar que 2010 é ano de eleições e me aventurarei na carreira de homem público, um emissário do povo, mas, obviamente, seguindo os padrões em vigor e me preocupando primeiramente com o povo lá de casa.

Minha plataforma política será bem simples e pautada em algo inédito na história de nossa Nação e que será a chave do sucesso da minha campanha: verdade e sinceridade. Não cumprimentarei inimigos, não apoiarei o que eu não concordo, não abraçarei na rua gente suada e fedorenta, não comerei comidas que eu não gosto em casa de quem eu não conheço, não prometerei o que eu não puder cumprir, melhor dizendo, não prometerei quase nada, não venderei minha alma ao diabo por nenhuma coligação e, principalmente, trabalharei apenas de terça a quinta e roubarei só o de praxe.

Pretendo ainda colocar em meu gabinete, ou no de qualquer outro colega de profissão, por causa da tal da Lei do Nepotismo, todos os meus parentes, amigos e agregados. É óbvio que eu preciso de uma equipe boa e confiável para o trabalho, e quem seria mais confiável do que as pessoas que sempre estiveram ao meu lado? Não sei se é verdade, mas já ouvi falar do caso de pessoas que preferiram confiar nos colegas de partido e quase se deram mal, só não foram punidos porque conseguiram provar que “não sabiam de nada…”. Bom, eu não quero arriscar… Continue lendo

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Eu e as redes sociais da internet

Quem me conhece já sabe: sou fascinado pela internet, sinto uma falta tremenda quando passo um único dia sem ter acesso à grande rede mundial de computadores, e passar dois dias seguidos sem ver meus e-mails é quase uma sensação apocalíptica. Uso a rede para quase tudo: atualizar o blog, visitar os blogs dos amigos, ler notícias, ver cotações, controlar de correspondência, ou melhor, receber e proliferar um monte de bobagens, jogos, horóscopo, previsão do tempo, pesquisas…

Em minha opinião, a internet sofreu um grande boom! de popularidade, tudo graças ao surgimento de milhares de Lan Houses oferecendo conexão, que eles chamam de rápida, a preços módicos, aliados ao aparecimento das chamadas redes sociais, como: o Orkut, o Twitter e o Facebook.

Bom, eu tenho contas nos três e, conforme alguns de vocês já devem ter notado, não sou dos usuários mais fiéis a nenhum deles. Para se ter uma ideia, as últimas fotos que eu postei no Orkut são de 2006. Só apareço lá, raramente, para responder a uns poucos recados que recebo, pois a maioria já percebeu que não é a maneira mais eficaz de entrar em contato comigo. Continue lendo

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Quem não tem gato, não caça

Dias atrás, apareceram uns ratos aqui por casa e, assim que notamos as visitas indesejáveis, resolvemos agir. Da primeira vez, colocamos uma armadilha que se parecia com um papel pega-moscas e funcionou direitinho, pusemos à noite e, na manhã seguinte, ele estava lá grudadinho. O bichinho era pequeno e asqueroso (como 99% deles), entretanto, durante o seu sepultamento, teve até direito a uma homenagem póstuma: ganhou o apelido de “Calunguinha”.

Não deu uma semana e percebemos que o problema persistia. Como em time que ganha não se mexe, compramos outra armadilha igualzinha, e não é que o roedor deu uma de Tom Cruise naquele filme: “Missão Impossível”? Levou o pedaço de pão e não deixou sequer rastros… ah, por duas vezes.

Diante de dois fracassos consecutivos, partimos para a força bruta e compramos uma daquelas ratoeiras de metal, com molas e tudo o mais, idêntica às que a gente vê nos desenhos animados. Sei que pode parecer ridículo de minha parte, mas preciso confessar que a primeira vítima da ratoeira fui eu mesmo quando, tentando entender o mecanismo de funcionamento, acabei acertando meu próprio dedo… e doeu, podem acreditar. Continue lendo

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Quem for chegando, vai ficando atrás

Como aqueles que acompanham as minhas crônicas devem ter percebido, meus lampejos de nostalgia vão e voltam.Esta semana, tentei resgatar um aparelho de celular que a operadora daqui estava oferecendo para quem fizesse uma recarga no valor de 10 dólares, porém não consegui, quando me deparei com aquele amontoado de gente e tracei mentalmente um gráfico comparativo de valor agregado da premiação versus estimativa de tempo despendido focado no macroambiente (é nisso que dá inventar de fazer os tais dos cursos de “Gestão”), desisti.

Vocês devem estar se perguntando o que isso tem a ver com nostalgia, mas é que, quando eu vi aquele monte de gente se acotovelando, sem nada que pudesse dar a mais vaga ideia de algo que se parecesse com uma fila, lembrei-me dos tempos criança, quando estudava no Colégio da Polícia Militar e, na hora em que chegávamos, formávamos uma coluna com todos cantando: “quem for chegando, vai ficando atrás, pois menino educado é assim que faz…”.

Tem coisa mais irritante do que fila? Chega a dar desânimo olhar pr’aquele mundo de gente na sua frente, e a mínima projeção do tempo que será perdido aguardando a sua vez é simplesmente desesperadora. Continue lendo

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Mandar é melhor do que…

Como diz aquele ditado: “Mandar é melhor do que…”, ah, não se preocupem, não colocarei um palavrão na minha crônica. Os leitores de mente mais poluída já devem ter conseguido completar a frase, os de pensamentos mais puros, que ficaram sem entender, depois me mandem um e-mail que eu digo a palavra que falta.

Acho que nunca a sabedoria popular foi tão precisa em suas colocações, quero dizer, ainda que haja controvérsias, já que eu, por exemplo, prefiro a ideia que está subentendida nas reticências, a história universal tem nos mostrado que o poder é mesmo inebriante.

Por mais clichê que possa parecer, a única comparação que me vem à cabeça é a de uma criança que ganhou um doce, ela vai fazer de tudo para não largá-lo e, se por acaso alguém vier a tirar-lhe o mimo da boca, pode esperar que vai haver uma choradeira de cortar o coração. Continue lendo

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